quero vida nada, tenho tu a ser mim tava,
fera lingua fere,
só aqui que espera cala,
tempo mudo tempo
até saber que tudo
não é nada
Fonte da imagem: Pintura de Joan Michell, disponível em http://www.kemperart.org
quero vida nada,
Sinto-me por vezes afoito em revelar este universo em mim. Permaneço imóvel. As idéias rondando-me a mente como mariposas cegas ao redor da lâmpada acesa em meio a madrugada. Não sei. Simplesmente não sei o que escrevo, quando a vontade é de gritar... De fazer, orgulhosamente e egocentricamente que o mundo perceba o que sinto. Quase sempre é tão fácil irromper o campo vazio com pequenas significações. Porém há momentos em que as palavras nos traem e tudo o que sentimos se transforma em um gás denso e etéreo. Uma suspensão de idéias que paira o entre de nossa materialidade e reflete em uma não-consciência de nós mesmos. Um estado de ilusão.
Sempre precisei
Prefiro café a chá.
Mais que sempre tenho prestado atenção nas pessoas.
A sutileza presente na carcaça fria das palavras, às vezes dói. Não porque a palavra, própria, ela assim em sua aparência revestida de corpo-signo se faça machucar gratuitamente, mas porque de fato ela dói uma dor que não se entende. Dor de quem a espreita ingenuamente. Penetra seus retornos. Infere seus tracejados, seus acentos, seus pontos e remeche a ferida aberta. Às vezes abre feridas que nem existiam , mas que a palavra, essa delicadeza cruel, consegue impor. Ninguém sabe o que esconde o véu sórdido das palavras, nem sabe por que ela tanto dói. Só se sabe que ela se faz doer nos momentos mais impróprios e que pode se apagar em matéria, mas sua marca se reveste de uma dor mais doída e mais imprópria, que só aumenta com o passar do tempo. Espécie de rancor. A palavra: melhor imagem do diabólico. Tão atraente e tão traiçoeira quanto se pode imaginar.
Dois dias fora de Santa Maria e quando chego,
Os demais extremo-oestes dos olhares despercebidos do mundo que me perdoem, mas em Porto Alegre, de fato, temos o mais belo pôr-do-sol que já se ouviu falar... Parece clichê repetir isso, mas só quem pôde alguma vez presenciar o momento em que a 'brasa escaldante' encontra o Guaíba a tardinha, é que entende a frase de Kleiton e Kledir em Horizones: "E um pôr-de-sol me traduz em versos...."

O que são nossas carnes dispostas ao tempo?