sexta-feira, 28 de novembro de 2008

amarelo-ocre

Choveu.
Mas choveu tão bonito que até me lembrei de um tempo em que chover não era também chorar...

Imagem: Cristian Mossi

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

outro lugar

Tem momentos, tão densos e suaves, que só o coração é capaz de lembrar. Presenças que, quando desprovidas da mágica sensação do toque, significam de outra forma a cama vazia, o rastro de flores, a falta do olhar. E passam a transbordar de desejos a face de quem ama, derramando lágrimas quentes de esperança pelo novo momento de se encontrar. Tem momentos que a ausência é tão grande que chega a ser linda. Então me fio pelo sol que se põe sereno e dá lugar a lua resplandecente no céu azul-turquesa, entristecendo e tornando plenas todas as almas que sabem ser também profundas. Tem momentos que eu nem sei explicar, e talvez nem o precise, mas que ficam para sempre. Ocorrendo pela eternidade a fora numa fresta de tempo feliz. Num outro lugar

Imagem: S2

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

ainda os mil tentáculos

Às vezes o que me assusta, não é a crença na (in)verdade alheia, mas nas minhas próprias (in)verdades. Ou na dificuldade que tenho de acreditar em mim mesmo, no que sou capaz, nos laços que se sustentam sem esforço ou destreza.
De outrora já disse que minha mente de menino prefere sempre acreditar que há monstros com mil tentáculos vivendo embaixo da minha cama, porém quero conseguir que eles permaneçam trancafiados em seu calabouço escuro e profundo.
Não quero ser também a imagem idealizada que por vezes criei ainda fora de mim.
Quero ser este assim, que erra, mas logo acerta. Que por vezes se esconde, mas logo se mostra. Que se deixa levar pelos dias com uma pitada de estranhamento e entusiasmo para dar sim, sempre que necessário, a cara a tapa.
Mas não quero entristecer o mundo com minhas não-coragens.


Fonte da imagem: http://abyssusabyssuminvocat.zip.net

domingo, 9 de novembro de 2008

novo tempo

Hoje, por alguns instantes, procurei Deus dentro de mim. Encontrei-o soterrado por entre escombros de vaidades tolas e vontades findas. Questionei-me se não seria a hora de inventar-me menos rude, mais atento ao outro, menos apressado, mais pacífico. Estas desconhecidas qualidades em tempos de profundo egoísmo e falta de delicadeza.
Hoje, por alguns instantes, tive dificuldade em concentrar-me nos meus sonhos, talvez por percebê-los muito centrados numa curta margem de desvio pelo próximo que atenta os meus passos.
Hoje, por alguns instantes, percebi que o tempo passou muito rápido e que pouco olhei para os lados nesse período, senão para posicionar-me friamente e deixar claro meus próprios parâmetros, mantendo-me sem desejar uma maior fluidez de todas as coisas.
Hoje, não sei exatamente o porquê, ao menos desejo que inicie um novo tempo em mim.

Fonte da imagem: http://limitenoceu.blogspot.com

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

abismos

Volta e meia os abismos. Aqueles de outrora que parecem sempre ter o mesmo nome, a mesma dimensão, a mesma cor mórbida que se enfadonha como que num passe de mágica e faz estranhar o que até então era impossível de ser ferido. Tola e desonesta esperança... E abrindo minha pele com a velha lâmina, torturando-me lentamente, procurando as causas das marcas e rescindindo tudo o que sinto, não quero pensar que os motivos estão dentro de mim. E tudo toma outras cores (im)possíveis. Desconhecidas, porém tão familiares. Isso também é tudo e é só.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O que eu quero dizer...

Te amo.
Mas quando digo que te amo não falo assim da boca pra fora, como um vício de linguagem, mera tautologia...
Quando digo que te amo estou dizendo que cada movimento seu pra mim é como um passo de dança, que me encanto sempre com seu jeito doce de descobrir o mundo todos os dias e que me apaixono cada vez mais quando você me olha rapidinho, encolhe os ombros e abre um sorriso que ilumina tudo que está ao seu redor. Digo que meu coração quase salta pela boca minutos antes de encontrar com você, que ele para de bater por alguns segundos quando você me beija e que chora baixinho quando novamente você tem que ir embora.
Te amo.
Mas quando digo que te amo estou dizendo que você para mim tornou-se único. Precioso. Que sinto falta do seu gosto, do seu cheiro, da sua voz rouca e preguiçosa quando acorda ao meu lado de manhã e me deseja um bom dia como se aquele fosse o primeiro e o último. Quando digo que te amo estou dizendo também que ao dormirmos juntos, acordo de sobressalto várias vezes durante a noite para me certificar que sua presença não é sonho e que nada me conforta mais ficar olhando você dormir silencioso e imaginar que aquele momento embaixo do cobertor é só nosso e que tudo ao meu redor poderia se acabar naquele instante.
Te amo.
Mas quando digo que te amo não estou pronunciando isso esperando que você me responda imediatamente as mesmas palavras em troca, mas que entre nós fique suspenso alguns segundos de silêncio e que nossa memória nos leve para o dia em que tivemos a sorte de nos encontrarmos e nem imaginávamos o quão importante seríamos um para o outro. E que seja possível nossos olhos sorrirem leves, confiantes, esperando o tempo em que nem seja preciso dizer algo para sabermos o quanto nos amamos.
Te amo.
E isso é tudo e só.

Fonte da imagem: http://www.aredenarede.com/

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

palavra-imagem



>Parte do monumento erguido em nome das vítimas do Holocausto - Montevideo/Uruguay

leve

Que o breve
seja de um longo
pensar.
Que o longo
seja de um curto
sentir.
Que tudo seja leve
de tal forma
que o tempo nunca leve.

(autor desconhecido)

p.s. Essa mensagem está num cartão que ganhei de aniversário e a imagem que a acompanha é composta por fotografias que tirei no jardim da casa de minha avó num dos primeiros dias da primavera.

sábado, 25 de outubro de 2008

delicadeza

Do amanhecer ao pôr-do-sol, flores acompanhadas por lindas palavras iluminaram o dia do meu aniversário e me encheram de esperanças, vontades e sentimentos quase inomináveis...
De uma delicadeza que se desenha cada vez mais doce e clara, trazendo consigo marcas que nem o passar dos dias pode levar, me fizeram pensar (e querer acreditar) que elas por si se vão, seguindo o curso da natureza, mas deixam sementes que trilham caminhos para uma longa história que acabou de iniciar!

Imagem: Cristian Mossi

desenredo de aniversário

Sempre pensei no aniversário como uma espécie de ano novo, data que as pessoas convencionam para acreditar que, por algum motivo, os ciclos se renovam. Tempo de passar a limpo as velhas angústias e de limpar aquelas ‘poeirinhas’ que geralmente ficam pelos cantos. Tempo de olhar-se para dentro e descobrir os caminhos serpenteantes que a vida construiu dentro da gente.
Hoje, completando o meu ‘um quarto de século’ (outra convenção humana), percebo que já fiz tanta coisa, já andei por tantas estradas e cruzei com tantos outros que levaram um pouco de mim e deixaram um pouco deles, que a impressão que tenho é a de ter vivido muito mais que somente 25 anos! Contudo, quando me pego recluso em mim mesmo (olhando para aqueles lugares que geralmente deixamos com o passar dos anos de olhar), o que encontro ainda é aquele menino franzino que mal sabia se defender dos meninos maiores da escola e sempre ia “conversar” com a diretora por conta de viver sempre no “mundo da lua”.
Frente às tantas barbáries que me deparo todos os dias no cotidiano, sou obrigado a pensar: “-Ainda bem que aquele menino não cresceu!”, e continua de algum modo lá dentro, sonhando e tentando realizar um mundo com cores e formas diferentes.
Nesse processo de invenção contínua de mim mesmo, o que percebo é que hoje consigo aceitar sem medo as mudanças, e vejo nelas momentos extremamente produtivos.
Já não tenho mais vontade de transformar o mundo, mas não perco nunca as esperanças em melhorar pelo menos parte dele. Tenho tentado ouvir mais as pessoas e aprender que nem todas pensam como eu, mas nem por isso o que elas pensam não pode ser válido. Aprendi a dar sem esperar nada em troca e a receber sem me sentir na obrigação de retribuir. Apaixono-me todos os dias por uma imagem ou por uma música e adoro flores, mas não consigo cuidar delas. Ainda aprendo essa arte! Amo meu trabalho e se não pudesse dar aulas seria um mochileiro-viajante. Tenho pensado em casar e adotar uma criança, embora por muito tempo tenha tido a convicta idéia de viver completamente só em uma montanha, longe da cidade. Aprendi a gostar de cachorros dentro de casa, aprendi a deixar a louça na pia quando não posso lavar, mas ainda não consigo acordar tarde sem sentir uma pontinha de culpa por não ser ‘produtivo’, ainda que adore acordar cedo e sentir o cheirinho da manhã. Aprendi que quando está muito quente num dia é porque provavelmente vai chover no outro, aprendi a me respeitar antes de esperar que qualquer outra pessoa me respeite, aprendi que nem todos os filmes vão dar conta da história que está nos livros e que cada dia pode ser particularmente especial - isso só depende de mim, sempre. Aprendi a desenhar o mundo como ele é, mas prefiro sempre inventar o meu próprio, aprendi a cozinhar e procuro fazer isso sempre que posso, aprendi a chorar quando tenho vontade, a dançar quando meu corpo pede e também aprendi a morrer de rir quando tudo parece não ter solução alguma. Descobri que é possível amar e ser amado à distância e nunca apreciei tanto o luar e o pôr-do-sol como ultimamente. Não vivo sem café e chocolate, não me imagino sem desenhar escritas e escrever desenhos e espero que no ano que vem, tenha aprendido muitas outras coisas a mais. E que tudo isso, tenha mais uma vez valido a pena.



p.s. A imagem (fote: http://www.flickr.com/) que acompanha essa postagem é a fotografia de um dos integrantes do grupo 'O teatro mágico' que vale muito a pena conferir e que tem um trabalho interessantíssimo unindo música, performance, poesia e uma viualidade de encher os olhos. Tive contato com esse grupo através de um vídeo que ganhei carinhosamente de presente de um amigo na tarde chuvosa do meu aniversário. Segue link para quem quiser conferir: <http://www.youtube.com/watch?v=MB9qzKnJVVo&feature=PlayList&p=7BA54F34BF1633EC&index=0&playnext=1>